Marco para o desenvolvimento do Seridó, Oiticica incentiva discussão sobre turismo fora do circuito sol-mar
- Renato Moraes

- 10 de out. de 2025
- 5 min de leitura
Por Renato Moraes (com informações do Governo do RN)
O governo do Rio Grande do Norte aposta na barragem de Oiticica, inaugurada no último dia 19 de março, para a expansão do desenvolvimento do Seridó e resgate da dignidade humana. No que diz respeito ao turismo, no entanto, ainda há o que fazer em termos de infraestrutura, avaliam profissionais ligados ao setor.

Conforme dados do governo estadual, com capacidade para armazenar 742,6 milhões de metros cúbicos de água, a barragem é a principal obra de um projeto maior chamado Complexo Hidrossocial Oiticica, no município de Jucurutu.
Além do reservatório, o complexo é formado por Nova Barra de Santana, que abrigava os moradores do Distrito Janúncio Afonso, (conhecido como Barra de Santana), localizado na área inundável da barragem; três agrovilas onde estão sendo assentados pequenos produtores, trabalhadores rurais e sem terras; rede de energia elétrica para uso residencial e produção de cultura irrigadas, e 128 quilômetros de estrada de acesso a estabelecimentos rurais da região.
Maioridade hídrica
Integrante do projeto da Transposição do São Francisco, o reservatório foi dimensionado para abastecimento de até 2 milhões de pessoas, através do sistema adutor do Seridó, que está em construção, além de assegurar projetos de irrigação numa área de 10 mil hectares, abrindo os horizontes para ampliação do desenvolvimento agrário e industrial no interior do Rio Grande do Norte. Conforme o governo estadual, isso fomentará a implantação de novas empresas e permitirá que os açudes de Cruzeta, Itans e Sabugi sejam utilizados prioritariamente para piscicultura, irrigação, pecuária e produção de alimentos.
Em material distribuído à imprensa, o governo também colheu depoimentos de beneficiados pela obra na região. Morador da Agrovila Raimundo Nonato, a poucos quilômetros da barragem, Francisco Evaldo de Souza tem 45 anos de idade, é casado e pai de dois filhos, um deles o ajuda na luta diária. Sem terra, sem teto, sem emprego, vivendo da pesca e de serviços eventuais na agricultura, enfrentou tempos difíceis. "Cheguei a morar debaixo de uma oiticica com a mulher e os filhos."
Com o passar dos anos, Evaldo conseguiu abrigo na comunidade Carnaúba Torta, localizada na área inundável da barragem, onde vivia da pesca e de serviços eventuais na agricultura. “Fomos criados na areia do rio. Somos daquelas crianças que cresceram sabendo como é a dura realidade da vida”, relata Lázaro Lucas, filho mais velho de Evaldo, estudante do 9º ano do Ensino Fundamental, que planeja fazer um curso técnico na área agrícola para ajudar o pai.
Hoje, a família ocupa o lote 34 da agrovila. Na quadra chuvosa do Semiárido nordestino (fevereiro a maio) ele planta milho e feijão para consumo próprio. Encerrada a colheita, se volta para as culturas de vazante no aceiro de um riacho, braço do Rio Piranhas, onde foi construída, há muitos anos, uma barragem submersa. "Se a vida melhorou pra nós depois disso tudo aqui? Muito!... Chegamos a passar fome, mas hoje temos nossa casinha pra morar e terra para plantar. Antes, a gente dependia da terra dos outros para sobreviver", afirma Evaldo.
Mecânico autodidata, o jovem Vinícius Santos, 21 anos, também soube aproveitar as oportunidades criadas pela construção do complexo Oiticica. Morador de Nova Barra de Santana, ele montou uma loja de peças e comanda a oficina de conserto de motos. Aprendeu o serviço trabalhando na oficina do irmão, em Caicó. "Só não faço retifica de motor, mas o resto eu dou conta", explica.
Muitos atrativos, pouca estrutura para o turismo fora do circuito sol-mar
A inauguração da barragem instiga uma antiga discussão sobre políticas de turismo além dos tradicionais circuitos sol-mar-aventura, normalmente ofertados pelas agências. O fotojornalista Canindé Soares considera a obra um marco importante para o combate à seca, como são as outras barragens, e que ela traz esse viés turístico de interesse. “No período de chuva, quando os açudes sangram, a demanda de pessoas interessadas em visitar esses lugares é absurda. O Gargalheiras (açude na cidade de Acari), fazia aí mais de 10 anos que não sangrava, quando sangrou o ano passado deu um congestionamento absurdo. As pessoas tinham que caminhar a pé porque não tinha como acessar”, lembra.
Canindé enumera outros atrativos, como as cachoeiras de Felipe Guerra, Cachoeira do Pinga (em Portalegre), “que é o tempo todo, mas no inverno ela fica com potencial maior. Agora, não tem estrutura nenhuma. Esse interesse é por pessoas que não são muito exigentes, né?” Segundo o fotojornalista, pessoas mais exigentes vão encontrar hotéis mais estruturados em alguns poucos lugares. “Mas de modo geral, falta estrutura”, conclui.
Canindé Soares registra imagens do interior do RN num projeto chamado "Caminho das Águas", que documenta as belezas naturais e a importância desse recurso hídrico no Rio Grande do Norte. Confira.
Outro quesito diz respeito ao acesso, que apresenta uma melhor condição atualmente. “No ano passado eu fiz alguns trechos e a maioria das estradas realmente estavam boas, as estradas para acesso a cidades pequenas que são as RNs, elas estavam mais sofridas. Mas agora, desde o ano passado que vem um trabalho do governo de recuperação”.
Segundo ele, Oticica já vai ter “muita gente interessado, porque no ano passado ela transbordou naquela parte mais baixa que a parede não estava completa. Inclusive vai cobrir agora com a com as chuvas, vai cobrir a a antiga barra de Barra de Santana, o cemitério. Eu fotografei isso antes, fotografei a cidade já abandonada. E também tem o interesse de conhecer agora a parede pronta, né? Quando vai sangrar essa gente não sabe, né? Mas com certeza certeza vai ser uma das grandes atrações do desse período de chuva. Como o Gargalheiras foi”.
Ele cita outros pontos de interesse com potencial turístico. “A gente tem o Armando Ribeiro Gonçalves, que faz mais de 10 anos que não sangra, muito mais de 10 anos. A gente tem o Umari (em Upanema). Esse ano, o Gargalheiras (açude, em Acari) deve sangrar novamente”, enumera.
“A Barragem de Caicó também muitos anos que não sangra, que é o Itãs, a de a de Pau dos Ferros também, faz tempo que não sangra. A de Parelhas, eessa eu nunca fotografei sangrando, a barragem do Boqueirão. Tem uma barragem importante também que atrai muita gente. É a Santa Cruz em Apodi. E por aí vai”.
Pouca procura para o interior, afirma guia local
Conhecido pelo domínio sobre a história do RN e atuando como guia há mais de 10 anos, Maurício Centauro, cita alguns roteiros mais próximos a Natal, como o Passeio das Águas, que tem paradas na Praia de Camurupim e Lagoa de Arituba. “Percorre uma distância de 40 quilômetros, e é bem frequentado por turistas do Brasil e sul-americanos”.

Porém, Oiticica é muito distante, considera. “São 245 quilômetros. Indo e voltando, são sete horas de viagem. Fica inviável para o turista hospedado em Natal. Porém, para o turismo regional em bate e volta, ou se hospedando em hotéis da região, aí sim, é possível”.
Ele explica que esse tipo de roteiro é pouco procurado. “Porque a maioria vem de cidades que não tem praias como São Paulo, capital e interior, Minas Gerais, Mato Grosso, Brasília, Goiás entre outras, e procuram pelo principal atrativo turístico do RN que são as praias. Individualmente vêm alguns para conhecer, por exemplo, o Geoparque Seridó”, exemplifica Maurício.




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